A MEMÓRIA QUE REDIME por Nilo Agostini

20/10/2020

A MEMÓRIA QUE REDIME


"O sentido de memória deverá ser ligado ao da experiência. A memória supõe uma experiência autêntica. A memória vai tecendo uma base que liga o individual e o coletivo; se entrelaçam o inconsciente com o espaço-tempo de nossa história; formam-se reminiscências, que propiciam acessar o passado e torná-lo cognoscível no presente".


Nilo Agostini

Pós-doutor em Educação e Doutor em Teologia


Quantas vezes constatamos que temos uma memória curta para afirmar que não aprendemos as lições da história. Na verdade, entregar ao esquecimento o passado, sem memória, é entregar ao inimigo a vitória, pois este encontra o caminho aberto para instrumentalizar as massas, manipulando o povo, as comunidades, as pessoas. Para uma historiografia oficial, feita pelos que querem perpetuar o seu poder, convém que o povo não tenha memória, pois assim joga-se no esquecimento a história e sobretudo os seus sofrimentos, relegando-o aos porões da humanidade; apaga-se o passado, atenuando ou mesmo sufocando o grito dos que sofreram e ainda sofrem, bem como fazendo cair no esquecimento a riqueza da cultura deste povo, que é vítima de uma cultura da classe dominante. Para esta, importa induzir o povo ao conformismo, levando-o a idealizar a cultura dominante e desmerecendo a sua, num processo de conformismo que idealiza o opressor. O resultado, que se apresenta como um perigo constante, é "entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento" (BENJAMIN, 2016, tese 6).

Há, no entanto, uma cultura popular que precisa ser redescoberta. Esta guarda um potencial utópico dos pobres, os vencidos da história, que contribui para a sua humanização e da humanidade como um todo. À medida que isso acontece despertam-se as centelhas de esperança já encravadas no passado e que suscitam no presente um engajamento ativo, crítico em favor da vida, fazendo da política o modo privilegiado de organizar o espaço social em favor do bem comum e por condições de vida compatíveis à dignidade humana.

Esta rememoração abre o caminho da redenção, pois arranca do passado o que pode iluminar o presente, numa intervenção salvadora. Trata-se da redenção dos excluídos e vencidos. É um trabalho messiânico, no qual cada um é convidado a participar, buscando interromper a história de opressão e de morte. Toma-se consciência da necessidade de uma ruptura que emancipe as vítimas, interrompendo a continuidade histórica da opressão. Instaura-se o kairós, como força redentora no presente, força de libertação; esta toma corpo pela memória e pela práxis. Segue-se, então, o tempo de reparação (tikkun, em hebraico) "do sofrimento, da desolação das gerações vencidas e da realização dos objetivos pelos quais lutaram e não conseguiram alcançar" (LÖWY, 2005, p. 51). Cada um deve assumir a sua parte nessa reparação, nesta tarefa messiânica e revolucionária. É o que esperam de nós as gerações passadas; é uma tarefa que elas nos atribuíram. A rememoração requer de nós reparação das injustiças passadas e a busca de um mundo humanizado.

Há um "dever de memória" (GAGNEBIN, 2014, p. 251), como exigência que vem do passado; há uma "ação redentora" que "se orienta para o presente" (LÖWY, 2005, p. 53). Em relação ao presente, a nossa ação é para que se instaure a "humanidade restituída, salva, restabelecida" (LÖWY, 2005, p. 56). Isto supõe que se garantam as condições de vida compatíveis à dignidade humana, sabendo que o olhar crítico sobre o presente haverá de apontar as possibilidades de superação do quadro que vitimiza o nosso povo.

O sentido de memória deverá ser ligado ao da experiência. A memória supõe uma experiência autêntica. A memória vai tecendo uma base que liga o individual e o coletivo; se entrelaçam o inconsciente com o espaço-tempo de nossa história; formam-se reminiscências, que propiciam acessar o passado e torná-lo cognoscível no presente. Não é mera recordação; se assim fosse, ela se desfaria e se perderia. A memória se conserva, não se desfaz, porque é talhada pela experiência. É capaz de colocar-se à escuta dos ecos do passado, influi e transforma o mundo no presente, porque não é superficial. Aqui, não são necessárias palavras de ordem, porque a memória feita experiência não se esvai; antes, ela atua e transforma.

A memória, longe de ser apenas um exercício mental, é antes um "corpo consciente" de pessoas concretas, de um corpo talhado pelas experiências que repercutem durante toda a vida e costumam ser fonte tanto de sofrimento como de sabedoria. Esta memória não se faz apenas pela leitura da palavra; começa, antes, pela leitura do mundo. Assim, o texto é lido dentro de seu contexto, tomando consciência das condições sociais de sua produção, lançando as bases para uma reflexão crítica, própria de uma pedagogia conscientizadora. Fala-se de uma inteligência no ato de ler o mundo que antecede a leitura da palavra. São descortinadas as relações que aí se estabelecem, desfazendo temores, decifrando a palavra no contexto do mundo em que se vive, tonando-se "palavramundo".

Ninguém pode ser considerado "cabeça vazia". Num determinado espaço e tempo, estamos todos participando de uma tarefa criadora num movimento que interliga a palavra e o mundo. Então, escrever o mundo significa igualmente transformá-lo, através de uma prática consciente. Decorre disto uma nitidez política, quer na compreensão da realidade social e histórica, quer na práxis que une reflexão e ação para a transformação do mundo. Pensa-se a prática com rigor para que não se transforme em mera teoria desligada do mundo.

Aplicando essas ideias ao universo infantil, Freire (2014) chama a atenção da necessidade da leitura do mundo das crianças. Isto significa que educadoras e educadores precisam "respeitar o nível de conhecimento que as crianças trazem para a escola", o seu "universo cultural", fruto de uma leitura que "a criança faz do mundo e com a qual ela chega à escola" (p. 174). A este universo, muitas vezes, se contrapõe a escola que parece assumir "a tarefa de apagar da memória e do corpo consciente dos meninos essa linguagem..., essa percepção do mundo, [...] num desrespeito à bagagem de vida, à bagagem existencial com que a criança chega à escola" (p. 175, 176). Existe a necessidade de "considerar a ligação daquilo que ela está aprendendo na escola com o que ela está aprendendo no mundo" (p. 176), ou seja "'o saber de experiência feito' com que a criança chega à escola" (p. 177).

Referências

BENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução Sérgio Paulo Rouanet. 8. ed. 3ª reimpressão. São Paulo: Brasiliense, 2016 (Obras escolhidas 1).

FREIRE, Paulo. Pedagogia dos sonhos possíveis. São Paulo: Paz e Terra, 2014.

GAGNEBIN, Jeanne-Marie. Limiar, aura e rememoração: ensaios sobre Walter Benjamin. São Paulo: Editora 34, 2014.

LÖWY, Michael. Walter Benjamin: aviso de incêndio: Uma leitura das teses "Sobre o conceito de história". Tradução Wanda Nogueira Caldeira Brant, Jeanne Marie Gagnebin, Marcos Lutz Müller. São Paulo: Boitempo, 2005.

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